03/08/2017


Vitorioso na base, dirigente mira primeiro título no cargo e exalta
tradição azul na Copa do Brasil: 'Camisa do Cruzeiro enverga varal'

Vinícius Dias

Da apresentação em meio à luta contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro de 2015 à recente classificação às semifinais da Copa do Brasil, Bruno Vicintin está prestes a completar dois anos como vice-presidente de futebol do Cruzeiro. "Talvez seria mais cômodo e melhor para a minha imagem ter esperado um momento mais tranquilo", reconhece em entrevista exclusiva ao Blog Toque Di Letra. "Porém, como cruzeirense, eu não ia aceitar me esconder", emenda, na expectativa pela primeira conquista. "Se não conseguirmos nenhum título, teremos um gosto amargo".

Vicintin fala sobre erros e acertos
(Créditos: Washington Alves/Cruzeiro)

Relembrando erros e acertos ao longo dos 24 meses, o dirigente revela bastidores da demissão do português Paulo Bento, no ano passado, e da saída do argentino Ramón Ábila, artilheiro da equipe nesta temporada. "Ele deixou claro para mim que não queria permanecer, apesar de respeitar muito o Cruzeiro". Fora da disputa pela sucessão presidencial, Bruno Vicintin também detalha pontos do plano de gestão que pretendia implantar, reafirma seu ponto de vista sobre o estatuto do clube e fala sobre a relação com o presidente Gilvan de Pinho Tavares no dia a dia.

Na primeira entrevista ao BLOG após assumir a vice-presidência de futebol do Cruzeiro, você falou em 'plantar coisas boas'. Prestes a completar dois anos no cargo, qual você considera ter sido seu maior acerto, a principal coisa boa que plantou? E o maior erro?

Coisa boa foi não ter me escondido no momento em que o Cruzeiro mais precisou. Talvez seria mais cômodo e melhor para a minha imagem ter esperado um momento mais tranquilo, tanto político como financeiro quanto técnico no clube para assumir um cargo no profissional. Porém, como cruzeirense, eu não ia aceitar me esconder. Na prática, implantamos a área de análise de desempenho no clube, que praticamente não existia. Muita gente acha que é somente análise de mercado, mas essa é apenas uma pequena parte do departamento. Hoje, temos um histórico de todos os jogadores desde o sub-14 com imagens e estatísticas que vão ajudar o clube na formação deles. A formação das gerações 1998 até 2003 foi muito mais bem feita do que a das gerações 1995 a 1997, e o Cruzeiro já está colhendo frutos dessa captação agressiva, como o Nonoca, que foi um jogador que já estreou bem no profissional e chegou ao clube em 2013, quando eu era superintendente da base.

Fizemos também diversas reformas no clube que vão ficar de legado na Toca I e na Toca II para várias gerações. A estrutura física que vão receber é muito superior à que recebi, como academia, dormitórios, escola, campos, fisiologia, preparação física e performance. Já o meu maior erro foi ter aceitado trabalhar com dirigente estatutário que nenhuma outra área do clube aceitava trabalhar e eu aceitei. Outro erro foi no início de 2016. Naquela época, eu já queria ter promovido o Klauss, queria ter feito minha própria equipe, mas aceitei que se buscasse outro dirigente no mercado. E este dirigente mostrou não ser merecedor da confiança que depositei nele. E isso acabou dando muito errado.

Gilvan é apontado nos bastidores como um presidente centralizador e, em vários momentos, especulou-se que ele teria vetado iniciativas suas. Até que ponto, ao longo desse período, você teve autonomia para tomar as decisões do futebol?

Eu acho uma covardia muito grande justificar falta de resultados com falta de autonomia. A única pessoa que tem 100% de autonomia no clube é o presidente. Meu trabalho é convencê-lo dos fatores que eu acho importantes, e é natural existir divergências de opiniões, ninguém concorda com o outro o tempo todo. Porém, se eu fiquei na diretoria foi porque eu aceitei essa forma de trabalho e porque eu achava que conseguiria ajudar o clube a evoluir, o que sempre foi a minha única intenção.

Desde 2016, você vinha sendo citado como provável candidato da situação à presidência. Para tanto, era preciso que o estatuto fosse alterado, o que não ocorreu. O presidente te comunicou o motivo de sequer ter convocado a assembleia? Isso te decepcionou? Para você, o debate foi iniciado no momento errado?

O presidente me falou que achava que ele seria acusado de casuísmo por mudar o estatuto em ano de eleição. Eu acho que o estatuto do Cruzeiro deve ser mudado, pois ele engessa novas lideranças no clube. Eu tenho 12 anos de sócio, nove anos de Conselho, cinco anos de diretoria, três na base e dois no profissional, e 40 anos de idade, e sou tido às vezes como muito novo ou inexperiente. Eu acho que o clube tem que abrir as portas para novas pessoas crescerem e não ficarem estagnadas. Não fiquei decepcionado porque acredito que Deus tem um tempo para tudo na vida da gente. Se não era para ser, tenho fé, como cristão, que há coisas boas guardadas para quem planta o bem.

Confirmada sua ausência na disputa, você apresentou o plano de gestão que pretendia implantar. Uma das propostas era ampliar o monitoramento de atletas sul-americanos. Na estrutura atual, como acontece, de fato, a participação do setor de análise de desempenho nas contratações realizadas pelo clube?

Como citei anteriormente, o departamento de análise de desempenho tem uma parte que é de análise de mercado. Existem vários outros fatores que este departamento analisa, como os adversários jogam, a forma, quais pontos fortes e fracos de cada jogador adversário. Hoje, por exemplo, nosso preparador de goleiros tem todas as estatísticas antes do jogo tanto de pênalti como de falta, da forma como os cobradores adversários batem. Então a análise de mercado é apenas um dos fatores da análise de desempenho. Hoje, ela vem funcionando da seguinte maneira. O jogador que a gente acha interessante, a gente passa para a comissão técnica, passa jogos do atleta, e a comissão analisa se é interessante ou não. Aí, a gente busca o atleta no mercado. Neste ano, a gente usou esse formato de contratações em todos os negócios, com exceção do Lucas Silva, que era um jogador que demonstrou um interesse muito grande de voltar ao clube que era sua casa e nós não poderíamos fechar as portas para ele.

No plano, você também listou 13 iniciativas visando à ampliação do engajamento da torcida, entre elas a criação de diretoria específica. Essa proposta indica que há lacunas na relação entre o Cruzeiro e o torcedor. Quais são? Como você vê, por exemplo, a participação do sócio do futebol nas eleições presidenciais do clube, hoje restritas a cerca de 500 conselheiros?

No plano de governo, existia uma diretoria de torcida porque acho que o clube tem que escutar as demandas do torcedor, que é nosso bem maior. Há demandas plausíveis e outras não, já que o torcedor é movido pela paixão. Essa diretoria seria para analisar isso. Ao mesmo tempo, existia neste plano uma estratégia para se aumentar a torcida, iríamos buscar entrar nos cinco clubes de maior torcida do país em alguns anos. Acho isso de suma importância, quanto maior a torcida, maior poder financeiro que o clube vai ter. Sobre a participação do sócio, na minha opinião, o sócio-torcedor deve ter cada vez mais voz ativa dentro do clube, já que é o dinheiro que ele investe que dá poder financeiro.

Acho importante começarmos a refletir sobre como essa participação pode ser feita. Se por um lado ela é importante, por outro também me preocupa como seria uma eleição presidencial movida somente pela paixão do torcedor, poderia ser algo muito volúvel, que varia de acordo com o desempenho do time em campo no momento. Nas eleições atuais, por exemplo, tenho visto gente fazendo campanha muito mais parecida com campanha para vereador do que para presidente do Cruzeiro.

No ano passado, a ousada aposta em Paulo Bento durou apenas 17 jogos. O português deixou o time na vice-lanterna do Campeonato Brasileiro e classificado às oitavas de final da Copa do Brasil. Naquele momento, faltava convicção no trabalho do treinador? Quanto pesou o fato de Mano Menezes estar disponível?

Não faltou convicção no trabalho. Faltou foi resultado. No decorrer do trabalho, a gente notou que ele precisaria de um tempo maior para se adaptar ao futebol brasileiro. Se déssemos esse tempo a ele, correríamos sério risco de não conseguirmos nos recuperar no campeonato e cair para a segunda divisão. O Mano é um treinador que estava no mercado, conhecia bem o clube e tínhamos confiança que ele nos tiraria do momento que estávamos, como tirou.

Vice estadual e eliminado na primeira fase da Copa Sul-Americana, o Cruzeiro inicia agosto a 21 pontos do líder do Campeonato Brasileiro, nas semifinais da Copa do Brasil e nas quartas da Primeira Liga. Com base nos investimentos feitos e nas expectativas traçadas no início da temporada, como você avalia esses resultados?

O Campeonato Mineiro a gente avalia que temos que disputar para decidir com o Atlético. Claro que é ruim perder uma decisão para o rival, porém, em se tratando de clássico, um tem que vencer, e eles, tendo o regulamento a favor, foram competentes. Na Copa Sul-Americana, realmente a campanha foi muito abaixo do que esperávamos, tínhamos time para disputar o título, igual estamos disputando a Copa do Brasil. Na Primeira Liga, classificamos em primeiro do grupo e vamos jogar as quartas contra um forte adversário. No Brasileiro, estamos muito atrás do primeiro lugar até por méritos do Corinthians, que está fazendo uma campanha avassaladora. Mas a gente espera estar entre os times classificados para a Libertadores. Entramos com objetivo de disputar o título. E ainda temos totais condições de disputar uma vaga no G6.

Na Copa do Brasil, estamos na semifinal, somos o único time que começou jogando a primeira fase e chegou entre os quatro, único time que eliminou três times da Série A e vamos disputar uma semifinal contra um time que vem sendo alardeado como o que vem jogando o futebol mais bonito do Brasil, mas sabemos que a camisa do Cruzeiro enverga varal e temos confiança que faremos dois grandes jogos e vamos disputar nossa sétima final de Copa do Brasil. A gente não se ilude, sabemos que o que fica é ser campeão. O Cruzeiro não entra só para fazer boas campanhas. Temos consciência de que, se não conseguirmos nenhum título, teremos um gosto amargo. Ainda temos dois títulos em disputa e estamos na briga por uma classificação à Libertadores. Então ainda tem muita coisa para acontecer no ano. Esperamos fazer por onde deixar o torcedor feliz e orgulhoso.

Contra o Palmeiras, Mano usou cinco pratas da casa - Murilo, Lucas Silva, Élber, Alisson e Raniel. Três deles foram emprestados a outros clubes antes da afirmação no Cruzeiro. Até que ponto, na transição, essa saída da Toca é interessante? Um time sub-23 para lapidá-los dentro do próprio clube, por exemplo, é viável?

Essa sugestão de time sub-23 é feita geralmente por pessoas que não trabalharam em formação, na maioria dos casos. Hoje, por exemplo, o Cruzeiro tem três atletas emprestados: o Fabrício Bruno na Série A (Chapecoense), o Caio Rangel na Série B (Criciúma) e o Andrey na Série C (Tupi), que vêm fazendo uma ótima temporada. Esses atletas têm conseguido minutos importantes que dão cancha para que, no futuro, retornem ao Cruzeiro preparados para o desafio que é jogar em um dos maiores times do mundo. Você colocar atletas deste nível para jogar a terceira divisão do Campeonato Mineiro, com o nível técnico baixíssimo, ia somar muito pouco na formação dos atletas e para a utilização deles na equipe principal.

O grande problema de se formar uma equipe sub-23 é a falta de calendário. Você estaria somente aumentando as despesas do clube com pouco retorno financeiro. A minha ideia era, caso fosse investir em uma equipe sub-23, que essa equipe fosse formada para disputar campeonatos europeus, como o Fluminense vem fazendo muito bem na Eslovênia e como a Traffic formou o Estoril Praia, que disputa a primeira divisão do Campeonato Português. Um projeto desses traria retorno técnico na formação dos atletas e financeiro pelo fato de estarem dando resultado na Europa. Um projeto para se disputar durante meio ano a terceira divisão do Campeonato Mineiro para se chegar à primeira divisão do estadual em três anos e passar o resto do ano sem calendário, eu acho pouco proveitoso.

Há duas semanas, o Cruzeiro negociou Ramón Ábila, seu artilheiro na temporada. Até que ponto essa saída foi uma decisão técnica, ligada ao fato de ele ser reserva, e até que ponto foi econômica, em razão da dívida com o Huracán? Se tivesse a chance de renegociar o contrato firmado em 2016, você faria algo diferente?

O que foi importante na negociação, primeiro, foi o desejo do jogador. Ele deixou claro para mim que não queria permanecer, apesar de respeitar muito o Cruzeiro. Por ele não estar jogando tanto, a dívida que teríamos que assumir no final do ano passava a inviabilizar a permanência do atleta. Sobre voltar atrás para mudar o negócio, acredito que, no momento em que o jogador chegou ao Cruzeiro, foi o preço a se pagar para a reação que tínhamos que ter para não deixar o clube cair. Se eu pudesse voltar no tempo e mudar alguma coisa, não mudaria a contratação do atleta, porque gosto muito dele, mas sim mudaria a pessoa que enviei à Argentina para contratá-lo.

Em seu primeiro semestre como vice de futebol, os investimentos foram moderados. Na sequência, o clube contratou o próprio Ábila, Rafael Sóbis e Thiago Neves. Do ponto de vista do futebol, como o Cruzeiro chegará financeiramente a 2018?

O Cruzeiro, como 99% dos clubes do Brasil, tem desafios econômicos a serem enfrentados em 2018. E existem duas formas de se enfrentar esses desafios e administrar um clube: ou alavancado financeiramente na esperança de buscar títulos e aumento de receitas, seja por aumento por sócios ou na venda de atletas, ou se apostar em um projeto de gestão em jogadores mais jovens, diminuindo os custos, com esperança de aumentar receitas com vendas no futuro. Essa segunda opção aumenta muito o risco de rebaixamento, e não existe opção certa ou errada.

Existe uma que deve ser definida pelo presidente do clube e seguida pelo seu vice de futebol e diretor. Para se trabalhar em uma forma de se sanear o clube deve-se ser claro com a torcida que vai se correr esse risco, que pode dar certo ou errado. Se der certo, vai haver um custo muito baixo e uma receita alta com atletas. Valorizando atletas novos, pode-se ter uma receita grande. Se não der certo, você passa a colocar a responsabilidade em atletas muito jovens. Essa responsabilidade pode custar caro. As pessoas que vendem as duas opções em ano eleitoral, que vão sanear e contratar grandes atletas, é uma mágica muito difícil de ser feita no futebol.

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